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A crise contra fogo

Por definição, um exercício tático de contra-fogo consiste em provocar um fogo controlado em determinado setor para criar um vazio de combustível e, assim, deter a progressão de um incêndio que avançava naquele sentido, sem possibilidade de extinção.

Claro que é legítimo ter esse procedimento em determinadas condições. O essencial é não deixar que o próprio contra-fogo se descontrole e António Costa foi o bombeiro da crise que ameaçava o PS neste ciclo eleitoral. O que não é legítimo, é dizer que o problema era dos professores e dos que queriam por em causa o equilíbrio das contas públicas. Isso é falso.

Com a ameaça de demissão, alegadamente a propósito do reconhecimento do tempo de serviço dos professores, o primeiro-ministro conseguiu esvaziar a carga combustível que ameaçava queimar eleitoralmente o PS: familiares no Governo e no aparelho de Estado, suspeita de fraude do chefe de gabinete do secretário de Estado da Proteção Civil, roubo de Tancos, recuo nas PPP da Lei de Bases da Saúde, mais dinheiro público para o Novo Banco…

De facto, tudo aquilo desapareceu do radar da comunicação social e agora só se fala da instabilidade política, dos professores que querem ver o seu tempo efetivo de serviço reconhecido, dos milhões que ameaçam a contabilidade de Mário Centeno.

Mas não só. A talhe de foice, vieram as desigualdades! Os que nunca se preocuparam com os baixos salários no público e no privado, com os cortes nos parcos rendimentos do trabalho e com as pensões de miséria, agora aparecem como paladinos da igualdade. Se é para uns, para os professores, tem de ser para todos e como não há dinheiro que chegue para todos, então não é para ninguém, dizem.

É preciso esclarecer que quem tratou de fazer um decreto lei só para os professores, que reconhecia apenas 2 anos de congelamento em vez dos 9 de tempo de serviço, foi o Governo. O Parlamento pronunciou-se, na figura regimental da apreciação parlamentar, apenas em relação a esse decreto lei e, por isso, não podia tratar de outras carreiras. Quem discriminou foi o Governo, quem quis concentrar o debate nos professores e apenas nos professores foi o governo e o PS. E agora bem percebemos porquê.

Há sempre a questão dos números, o “não há dinheiro”. Certo, mas o texto aprovado não definia metas, nem prazos. Essa seria a negociação a ter pelo próximo Governo, só a partir de 2020. Para este Orçamento, de 2019, não haveria qualquer pressão ou alteração. Para além de que é consensual, os próprios sindicatos já o tinham referido, que o faseamento do pagamento da recuperação da carreira seria assumido.

Já para não referir que a recuperação económica de Portugal se deve, em grande parte, ao facto de os trabalhadores estarem a recuperar rendimentos e esse ser um contributo decisivo para a economia, a diminuição do desemprego, a maior cobrança de impostos, o equilíbrio da Segurança Social, etc.

Então, como é que foi possível que a crise política montada por António Costa tivesse tido tanto impacto e funcionasse mesmo como uma espécie de contra-fogo para o PS? Bem, porque a atitude contraditória da direita foi demasiadamente evidente e colocou até barões e baronetes do PSD e do CDS-PP a contestarem a votação que esses partidos tiveram na AR. De facto, PSD e CDS nunca se interessaram pelos rendimentos e direitos do trabalho, mas agora queriam disputar o chamado “centro” e eleitores docentes ao PS. A falsidade da atitude obrigou-os rapidamente, perante a ameaça, a recuarem, a regressarem ao redil do déficite e a darem o dito por não dito, mesmo que o tenham feito com ar façanhudo perante as câmaras da tv.

À esquerda do PS, o que sempre tinha sido dito foi o que permaneceu. Defesa dos direitos do trabalho em primeiro lugar, sendo certo que nenhuma ameaça haveria para as contas certas e equilibradas, como veio a confirmar a UTAO, uma entidade independente. Com o recuo da direita que agora votará ao lado do PS, tudo voltou ao previsível e a luta dos trabalhadores pelos seus direitos vai continuar, ficando evidente quem de facto está sempre ao seu lado.

 

Artigo publicado no jornal Barcelos Popular