Barcelos em festa ininterrupta. Desde a folia das Cruzes, Ai! que isto não pára. Na verdade a dinâmica jovial é constante sucedendo-se como que num turbilhão de dispersas iniciativas, que vão desde uma pindérica Mostra da Juventude a um consolidado e eclético festival de vibrantes sonoridades. No entanto diga-se que este ano o Milhões foi amputado dos momentos de inclusão e absorção do povo ao não repetir a contagiante iniciativa de espalhar música pela cidade acrescido da exorbitância do preço dos bilhetes. Cumpriu-se a sensaborona Feira do Livro e fez-se uma interessante Feira Medieval que este ano deixou de ser de pacotilha, ao jeito de encomenda em cartaz, e lançou bases para uma verdadeira recriação da história da cidade. Só este fim-de-semana tivemos: a inauguração da Mostra de Artesanato - acontecimento que deveria ser a montra de oportunidades para o concelho mas que se tem revelado numa costumeira e infecunda iniciativa; Festival do Rio - projeção consolidada e de relevante dimensão trazendo até nós o diversificado mundo de folclore; inicio das noites estivais ao culto narcisista da urbe - Amo-te Barcelos - que não é mais do que vácua diversão com um chorrilho de palavras apoteóticas à cidade, do género quem não salta não gosta de Barcelos. Interessante aferidor de estima pela terra.
Sem esquecer a multiplicidade de santas festas no concelho, seculares e identitárias de cada freguesia com a venerada procissão ao padroeiro, mas que cada vez mais se tornam no culto do profano com brejeiros refrões que todos sabem trautear e dançar no arraial noturno. A qualidade da festa passou a ser aferida pela hierarquia de popularidade do “pimba” de ocasião.
Cingindo a opinião ao espaço urbano, e não pondo em causa a validade de muitas das iniciativas que foquei e de outras que não referi e até com a menção do reconhecimento que a cidade se libertou de amarras e preconceitos e é hoje muito mais atrativa e plural de manifestações, insisto em algo que é fundamental desenvolver – Plano de Atividades com planificação específica de objetivos e aferição de resultados. Não se pode ter um pacote avulso de iniciativas que se vão calendarizando ao sabor do tempo e das quais nada se avalia para corrigir deficiências e potenciar aptidões. Compete ao poder autárquico conceber princípios estratégicos de um desenvolvimento de política cultural, recreativa e lúdica, que de forma sistemática e sustentada aposte num projeto centrado na valorização do concelho.
Em registo contrário a esta jovial pujança festiva assistimos, com inércia e letargia coletiva, à perda constante de serviços e de centralidade do nosso concelho. O hospital está a cumprir o plano de desmantelamento de valências tornando-se cada vez mais num centro de cuidados primários e de triagem para os hospitais centrais. O tribunal passa a seção da Comarca Judicial de Braga perdendo competências e capacidades sem atração profissional e com aumento de custos para a população. E este é o primeiro passo para o encerramento que virá por inoperância do próprio serviço. Somos um concelho jovem, ainda dos que têm maior tx de natalidade ao nível do cataclismo demográfico que o país atravessa, e mesmo assim encerram escolas do 1º ciclo por decisão ministerial. Não temos acesso a fundos comunitários para a construção da Escola de Tecnologia no IPCA porque somos um concelho de reduzida importância e não estamos no patamar das prioridades. Situando-nos na confluência geográfica de diferentes rotas temos perdido centralidade de comunicação por falta de transportes coletivos. Nos rodoviários reduziram-se as já poucas ligações diretas que existiam, nos ferroviários é uma desligação total. Nem sequer conseguimos a reivindicada paragem do comboio Celta. Como recompensa malévola, Barcelos é o concelho mais afetado pelo traçado da inusitada linha de muita alta tensão. Saiu-nos a fava. Desvalorizam os terrenos, sofremos o impacto ambiental de paisagem e corremos o risco de contrair doenças. Grande dádiva.
Para responder a este esvaziamento, que já chega aos médios concelhos de litoral, é preciso um poder autárquico determinado, reivindicativo e com projeto de futuro. Pensar Barcelos implica que no imediato se discutam as intenções, se criem metas e objetivos e se projete o concelho no panorama regional e nacional. É crucial que a autarquia saiba interpretar os novos desafios da governação e não se limite a uma gestão doméstica de conta corrente. O que é feito da pomposa estratégia municipal Barcelos 2020?
Não podemos continuar sem rumo à espera que algo aconteça, coabitando com os contrastes da indefinição e desperdiçando oportunidades de afirmação. O tempo é de ação, de coragem e de decisão. O poder local pode e deve marcar a diferença e corrigir, em parte, o desastre nacional. É nestes momentos que importa, mais, a asseveração da política e dos políticos locais.