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Carta aberta ao Hugo Soares

Nunca tive o desprazer de te encontrar. Mesmo assim, achas-te no direito de decidir sobre a minha vida e no de atirar essa minha vida, que desconheces, para a praça pública, pondo o país a escrutiná-la. Não o fazes por creres que a sociedade deva decidir todos os pontos da sociedade e não o fazes, como o disseste, por creres que a aprovação da co-adopção por casais do mesmo sexo seria desrespeitosa para com os eleitores do PSD, que não votaram esta medida de avaliação da vida alheia. A campanha eleitoral, temo-lo visto, vale zero para o PSD. Na vossa bancada, ninguém abriu a boca sobre engano aos eleitores quando se falou sobre roubar salários ou pensões. Ninguém abriu a boca quando esse roubo passou à acção. Ninguém acredita na tua ingenuidade.

És um exemplo de coragem. Tiveste a bravura de dar a cara por uma das maiores ladroagens e indignidades que passaram pelo nosso Parlamento. Qualquer outra pessoa, menos valente, por certo, iria agachar-se debaixo da cama e esconder a cara coberta de vergonha. O teu nome, contudo, já vagueia pelas ruas, sujeito aos impropérios, e penso que não tardarás a descobrir que a tua atitude vergonhosa não dará corpo ao golpe político que te propuseste a executar contra os direitos humanos, a emancipação e a dignidade, contra um mundo mais justo e mais humano, contra a protecção de crianças e de famílias que desconheces. Nunca te tive em grande conta, é certo, mas custa-me que um homo sapiens sapiens possa descer a este nível, permitindo que famílias sejam destruídas, fingindo um acto em nome da democracia, fingindo uma súbita preocupação, nunca antes conhecida neste mandato, com o eleitorado. Fingindo, pois claro, que podias preocupar-te com coisa alguma para além de golpes. Esta é mais uma prova desse umbiguismo político: foste até ao ponto de propor a violação da lei orgânica do referendo, misturando duas matérias na mesma proposta de referendo e propondo que o referendo se realizasse no dia das eleições europeias.

Vi-te num vídeo da campanha “Tudo vai melhorar”. Moveu-me a curiosidade de ver alguém da JSD a defender direitos de alguém. Pareceu-me estranho, inédito, exótico. Mas o teu discurso devolveu a normalidade ao mundo: foi um discurso vazio, sem revolta para com a homofobia, sem vontade de mudar o mundo, sem garra. Cumpriste o papel que te parecia bem. Talvez, com essas declarações, estivesses à espera de que os gays fofinhos e inofensivos, sedentos da tua piedade, te agradecessem por não deixares de gostar deles. Talvez estejas ainda à espera de quem possa rebaixar-se ao afecto de quem está no trono da JSD. Mas nós sabemos que não és assim, Hugo. Na hora de agir, és quem permite que sejam referendados direitos humanos. És quem permite que a homofobia vença. És quem dá espaço para que isso aconteça. És quem permite que famílias sejam destruídas, que crianças fiquem desprotegidas, que o conservadorismo vença a vida. És o carrasco dos direitos que apregoas.

As famílias que queres referendar já existem, Hugo. Talvez te tenha escapado o pormenor. Vendo-as como matéria abstracta, desprovida de gente, preferes que alguém tenha o direito a legitimá-las, ou não, a teres a decência de entender que não há um modelo único de família, bem de acordo com as tuas ambições de Estado Novo.

É em nome de uma manobra política que ignoras o superior interesse das crianças, propondo que o direito a terem uma família seja referendado, propondo que eu decida o destino dos filhos dos outros e que os outros decidam o destino dos meus. Propondo, afinal, que as minorias só tenham direito à existência se as maiorias se decidirem pela benevolência. Queres referendar a igualdade, Hugo. Não cabes no parlamento de um país que queira ter um cunho democrático.

Dizes, no vídeo que mencionei, que somos todos iguais. Mas não somos, Hugo, não caias nessa ilusão. Há um lado mais claro, que não é o teu. E nós sempre fomos mais generosos, mais capazes, a injustiça sempre nos fez mais comichão: queríamos mais direitos para todos. Para que todos pudessem ser iguais.

Ainda bem que não nos cruzamos na escola secundária. Estou certa de que farias o bullying silencioso de quem ostenta o sorriso irónico cheio de superioridade que a heterossexualidade permite. Estou certa de que o farias, porque é tua a jota que se move numa capa de hipocrisia, que não tem garra, que não vê além do imediatismo das suas satisfações político-partidárias. É teu o palco da vergonha, do egoísmo, do ataque.

O dia em que entraste na Assembleia da República foi um dia triste para a democracia representativa, mais um daqueles que o teu partido de jogos nos deu. Nesse dia, foram lançadas as cartas para que pudesses aprovar um insulto a crianças, a famílias, à igualdade, à liberdade. Fizeste-o, em vez de vires dizer que a proposta da co-adopção só pecava por tardia e por falta de ambição, por conceder meios direitos. Quem te visse naquele vídeo e fosse demasiado ingénuo quase podia acreditar que eras desse tipo de pessoas, tu que até tinhas dado a cara por uma causa justa. Quem te visse naquele vídeo, a fingir que te tocavam as discriminações que perpetuas, quase podia achar que estavas do lado da justiça. Mas não estavas. Serás uma espécie de bissexual dos direitos humanos. E, Hugo, ninguém deve discriminar ninguém pela bissexualidade. Que se toque nos direitos humanos é que é mais complicado.