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Mais do que incompetência.

Há situações absolutamente incompreensíveis e, no caso dos fogos florestais, a gestão do Governo chega a ser contraditória e irresponsável.
No concelho de Barcelos existe apenas uma equipa de Sapadores Florestais, gerida pela Associação Florestal do Cávado, que tem outras equipas nos concelhos de Esposende, Vila Verde, Amares e Terras de Bouro. No distrito de Braga são 15 equipas no total, geridas por 7 associações e cooperativas. A nível nacional são cerca de 280 equipas.
Quem consegue explicar que os Sapadores Florestais, com responsabilidades importantes na gestão de material combustível na floresta, vigilância, primeira intervenção em incêndios florestais, apoio ao ataque ampliado e subsequentes operações de rescaldo e vigilância pós-incêndio, estejam sem receber desde junho os apoios financeiros contratualizados com o Instituto de Conservação da Natureza e da Floresta (ICNF)?
Será que o Governo não percebe que o atraso na transferência desses apoios, essenciais para pagamento de salários, compra de material e de combustível, torna as equipas de Sapadores Florestais inoperacionais, precisamente no período mais crítico de elevado risco de incêndios florestais?
Como explicar que o contrato que adjudicou a reparação dos helicópteros pesados Kamov, comprados especialmente para o combate aos fogos florestais, só tenha sido assinado a 17 de julho, já em pleno período crítico de risco de incêndios nas áreas rurais, fazendo com que, dos 5 helis existentes, só 3 estejam operacionais?
Alguém consegue entender que nos últimos dias de funcionamento do Parlamento, a coligação governamental tenha feito aprovar, com a abstenção do PS e os votos contra do BE e PCP, um diploma que deixa de considerar o incêndio florestal crime de investigação prioritária?
Torna-se muito difícil perceber tudo isto, a não ser que o Governo tenha tido a expetativa híper-otimista de que o baixo número de ocorrências de incêndios florestais do ano passado se repetiria, sem mais, este ano. Se foi esse o caso, as contas saíram-lhe furadas, como seria de esperar. No início de agosto, este ano já era o pior dos últimos dez.
Porém, o problema é muito mais grave. Não se conhece a este Governo nenhuma política de preservação da floresta nem de prevenção séria dos fogos florestais. Aliás, as únicas políticas que lhe são conhecidas a este nível, são as da liberalização da plantação do eucalipto e a do ataque à propriedade comunitária dos baldios, ambas do maior agrado das empresas da celulose.
É por isso que custa a crer que os atrasos no pagamento aos Sapadores Florestais e na contratualização da reparação dos Kamov, bem como o fim da prioridade na investigação criminal aos fogos florestais, sejam apenas uma questão de negligência ou de incompetência. Afinal, quem pode ganhar com esta desastrada gestão dos fogos florestais?
 

(Publicado no jornal Barcelos Popular)