O novo valor atribuído ao transitório, ao fugidio e ao efémero, a própria celebração do dinamismo, revela um anseio por um presente estável, imaculado e não corrompido.
Jurgen Habermas
A confiança no futuro é assegurada pelo desempenho no presente. A mudança histórica de conquistas tem sido sempre proporcional à dimensão dos protestos. A greve era proibida mas os trabalhadores paravam. Com medos e receios foram arriscando à medida que iam conquistando. Protestavam na empresa, eram despedidos. Protestavam na rua, eram presos. Desobedeceram em forma de greve para ter direito à greve. Travaram batalhas para terem contratos de trabalho, para terem direito a férias, salários e condições dignas. Marcharam para ter direito a assistência à saúde, à educação e à protecção social. E foram precisas muitas greves, muitas marchas, muitas lutas, muito querer e muita gente com muita coragem. Séculos de história de luta dos trabalhadores que temos de saber honrar. Nada se conquista sem a determinação do acreditar que tudo se pode transformar.
É com estes valores e por estas conquistas que devemos comemorar o 1º de Maio. É pelo direito ao trabalho com direitos que devemos engrossar a contestação, manifestar a indignação e estimular a participação com vínculos de cumplicidade na confiança da razão.
Estamos no Portugal de 2015. Fora a patranha governamental dos números que encobre os que estão em formação, os que têm subemprego e os que desistem de procurar emprego, acrescido de dados de emigração ao nível dos piores anos da década de 60, temos mais de 1 milhão de desempregados, milhão e meio de precários, aumento permanente do desemprego estrutural (12%) e 35% de desemprego jovem. Salário médio mensal a metade da média UE, salário mínimo no patamar do subdesenvolvimento e aumento do fosso entre os mais ricos e os mais pobres. 20% da população em risco de pobreza e uma em cada 3 crianças no limiar da miséria. Para colmatar estas obscenas assimetrias, estes ignóbeis governantes cortam nos apoios sociais, reduzem salários e extorquem direitos. Políticas de mercantilismo das nossas vidas operadas por uma corja de acólitos políticos do capitalismo especulativo, desumano e desonroso.
Comemorar os valores de Abril é não aceitar a continuidade do trabalho precário, do trabalho infantil, do desrespeito das condições e direitos laborais, dos baixos salários, da falta de oportunidade de emprego, de formação e de valorização dos jovens, da exclusão social dos deficientes, dos rendimentos miserabilistas das reformas. É fazer acreditar que com laços de fidelidade por uma luta junta e forte somos capazes de contrariar esta tendência desastrosa de nos fazerem crer que não há alternativa. A democracia centra-se no equilíbrio dos contrários e é exatamente a altercação das diferenças que constrói os percursos. Afirmar que há um caminho único é destruir a essência da democracia, é aniquilar a liberdade da escolha, é transformar a opção na imposição.
Exige-se que saibamos inverter a marcha deste moderno esclavagismo em que a ditadura do mercado se sobrepõe à democracia dos direitos. A nossa resposta tem de ser na proporção do perigo da situação. É preciso alertar para a responsabilidade da nossa acção porque o que está em causa é a caução das nossas vidas sem qualquer garantia de as puder viver com dignidade.
Exige-se saber lançar iniciativas de vasto alcance, com possibilidade de êxito e com bases sólidas, que respondam às reais pretensões coletivas do nosso povo. Temos de saber construir uma ampla e ativa base popular de apoio e ação, capaz de disputar o poder e alterar, radicalmente, o rumo do programado e em decurso.
Abril cumpre-se sempre. 1º de Maio luta-se todo o ano. Comemorar é exigir o pleno direito de ser cidadão/ã. O passado é identidade e o futuro é agora!