Um recente acontecimento tauromáquico levado a cabo em Viana do Castelo pode, no imediato, ser visto pelos defensores dos direitos dos animais como uma derrota. Contudo não o foi. E porquê? Porque o facto de este “espetáculo” ter sido realizado no primeiro município anti-tourada do país vem mostrar que a ideia é, mais do que um acontecimento, uma provocação, um ataque a uma ideologia que defende que o homem não deve infligir dor nos animais para proveito próprio.
Esse “espectáculo” foi também importante na medida em que originou a abertura de um debate na opinião pública, nomeadamente nas redes sociais e nos media. Debate este que contribuiu em certa medida para esclarecer aqueles que por nunca terem pensado no assunto e não terem ainda opinião formada possam assim definir uma posição. Posição que se baseia numa simples questão:
Concorda com um espetáculo que tem como finalidade o sofrimento e a morte de um animal?
E a pergunta surge desta forma porque se parte do princípio de que touro é um ser senciente portador de um sistema nervoso central e que assim sendo é um animal detentor da “capacidade de sofrer ou sentir prazer ou felicidade”. Estaremos então de acordo que durante o “espetáculo” o touro sofre, aliás é por demais evidente a quantidade de sangue derramado na arena e é também evidente que, em contrapartida, o touro não está a “sentir prazer ou felicidade” por participar na “festa”.
Num texto publicado neste mesmo jornal da autoria de Maria Susana Mexia, transcreve-se um comentário ofensivo de Joaquim Bastinhas que foi amplamente difundido através das redes sociais em que o mesmo diz: “Esquerdistas de m… são a favor do aborto, da eutanásia, das drogas e dos maricas e ainda têm coragem de criticar uma tradição que tanto orgulha os portugueses”.
Maria Susana Mexia afirma a seguir que “uma das grandes qualidades destas gentes (pró-touradas) é a frontalidade, é falarem com o coração, sem papas na língua, sem contornar ou distorcer”.
Ética e moralmente reprovável, este artigo, bem como muitas outras afirmações nele presente, vem por a descoberto a verdadeira essência daqueles que defendem a tortura animal, particularizando a questão da defesa dos direitos dos animais apenas a um grupo restrito de “esquerdistas”, criticando-os de “ausência de respeito pela dignidade da vida humana”. A falta de capacidade de nos colocarmos no lugar do outro leva-nos na maior parte das vezes a formar ideias e preconceitos que se transformam num erro, não apenas pelo cariz maldoso de infligir dor a outro ser mas também pela cristalização dessas mesma ideias.
A alteridade é uma virtude humana e se possuímos essa capacidade de nos colocarmos no papel do outro então façamos aqui e agora esse exercício, será penoso, obrigar-nos-ão a entrar numa arena repleta, iremos sangrar e tentaremos fugir mas em vão. Vão aplaudir o nosso sofrimento e só quando aqueles que respeitarem não só a dignidade da vida humana mas a dignidade pela vida é que poderemos um dia acreditar que seremos livres. Mesmo que essa liberdade implique a nossa extinção, porque nascer para viver apenas com o propósito de entreter humanos não é vida, é tortura.
Que ecoem as palavras de Peter Singer, filósofo americano, que disse um dia:
"Uma tourada é um anacronismo, um resquício do passado, de uma era mais bruta, cruel e bárbara, poder-se-ia dizer, quando as pessoas se deleitavam a assistir ao sofrimento dos animais. E, enquanto as touradas existirem, persistirá a ideia de que os animais são apenas coisas das quais podemos dispor para nosso bel-prazer e, mesmo o seu sofrimento, pode ser usado como parte de um espetáculo para entretenimento das massas. Eu acho que o tempo em que isso era aceitável já passou”.
Eu também,
Jorge Vilela