“O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos”
Simone de Beauvoir
Cada vez é maior a depressão social e menor a determinação para a transpor. Os portugueses estão descrentes com o presente e sem futuro. A crise generalizou-se, incorporou-se e aglomerou-se. A familiaridade com o léxico das incertezas, da desesperança, do desassossego é uma constante. Estão-nos a fazer desacreditar nos direitos, na democracia, no país. Querem-nos embrutecer para que percamos a exigência e a dignidade de saber viver e nos limitemos à bagatela de sobreviver. Contam-nos inebriantes fábulas, já estamos à porta do país da Alice, alardeadas por maravilhosos governantes que tudo dão à nação para salvar o seu triste povo, que tão maltratado foi por uns antecedentes fariseus. Esquecem-se de lembrar que os anteriores já assim tinham dito dos respetivos antecedentes. É o eterno retorno da desculpabilização sempre usado pelos incompetentes. Embalam-nos com uma retórica de palavras ocas, que vão da sustentabilidade à racionalização, da inevitabilidade à recuperação, da respeitabilidade à abnegação, validando a ação num discurso condimentado com mais aumento de impostos, menos direitos do trabalho, mais austeridade e menos serviços de Estado…, ou seja, paguem mais para ter menos.
Para uma certificada encenação até compuseram um hodierno dicionário tradutor de intentos ideológicos. A flexibilização fundamenta os despedimentos chamando-se a estes ajustes ao nº de colaboradores; A harmonização explica os salários miseráveis e justifica os cortes soberbamente designados por contribuição coletiva para o abatimento da dívida; Austeridade - prato diário cozinhado pela finança de intragável degustação, que o povo aprende a comer e calar; Mercados - denominação sacrossanta de espectro vasto que cobre todo o tipo de malfeitorias e serve de matriz à cartilha do novo paradigma económico e social. Tudo é para liberalizar, tudo é negócio, tudo é capital, tudo é efémero, circunstancial e falacioso. Queremos inverter o ciclo demográfico do envelhecimento e por isso cortamos o abono, aumentamos os encargos e o horário de trabalho, mandamos emigrar os jovens. Está a resultar em pleno, e até muito melhor desde que a esfinge presidencial, candidamente, vociferou a sua dúvida existencialista: …porque é que Portugal tem uma tx de natalidade tão baixa?
Queremos combater as assimetrias regionais e dar coesão social e territorial ao país. Por isso, de modo unilateral e acelerado, temos encerrado escolas, tribunais, hospitais, centros de saúde e outros serviços públicos em todo o interior. O passo seguinte será fazer o mesmo nos pequenos e médios centros urbanos do litoral para que não seja possível acusarem-nos de provocar, somente, o interioricídio. As últimas destas medidas são implacáveis nos seus intentos. Os tribunais deslocalizam-se ou vão-se transferindo para as grandes cidades abrindo novos negócios; os hospitais desmantelam-se ou vão-se esgotando para rentabilidade de sistemas privados; umas escolas fecham e as outras, perigosamente, municipalizam-se. Esta é a mais recente e uma das mais funestas decisões governamentais. Para além do clientelismo, da dependência politica e do desregulamento institucional gerado pela Municipalização, acresce dizer que as câmaras que diminuam o nº de professores serão premiadas. Interessante dimensão intelectual. Assim se gera emprego, se contribui para um ensino de qualidade, se constrói um país mais capaz e melhor formado. Deixem-se de lérias, o que pretendem é acabar com a Escola Pública de cariz universalista e igualitário. Aliás, este governo tem a lição bem estudada, sabe o que quer e para onde ir. É este o caminho e é esta a cartilha. Acabar com o Estado Social. É o primado do privado a canibalizar o papel do Estado.
Queremos acabar com os privilégios, o despesismo, as relações promíscuas entre a política e os negócios e diminuir as diferenças dos rendimentos. Para isso só nomeamos gestores com carreira partidária autenticada. É verdade, que pelo facto de sermos uma coligação aumenta o número de tachos a disponibilizar. Todos terão de contribuir para o esforço nacional na razão proporcionalmente inversa ao interesse governamental. Assim, os reformados, a função pública, o povo, têm, por clemência, que subsidiar a banca, as regalias dos privilegiados, a estroinice dos gestores, mesmo que isso acarrete um aumento do fosso, já bem profundo, entre os ricos e os cada vez mais pobres. É a imposição do progresso e a fatura de terem vivido acima das possibilidades. Em nome da estabilidade financeira, só precisamos de saber quantos milhões vamos enterrar no BES, que agora é “verde por fora e laranja por dentro”.
Povo do meu país. É preciso acordar, levantar a voz, içar a bandeira da insurreição. É tempo de deixar de ter temporização. Não podemos ser cúmplices da opressão que corroí a nossa dignidade e que destrói as nossas vidas. A exigência é a força da nossa luta. Queremos e Podemos Mudar.