A autodeterminação dos países, das nações, dos povos, foi sempre, e continua a ser, a bandeira da razão da sua existência enquanto identidade. A luta pela autodeterminação libertou os povos do colonialismo, desobrigou os países de compromissos tutoriais e exonerou nações de aculturação ditatorial. Hoje a autodeterminação impõe-se pela recusa a uma política de austeridade que empobrece os remediados, miserabiliza os pobres e enriquece os abastados. Esta dominação neocolonialista, que tem perpetuado no poder uma burguesia de especulação financeira, usa a prepotência e a falácia para impor um pensamento único. Veja-se o descaramento de alguns dos seus emissários a intimarem o povo da Grécia, numa ingerência de chantagem primária, bem ao jeito dos pavores da história. "Não votem errado, os mercados e a Europa não perdoarão"; "Vão sair da Europa e do Euro"; “Quero ver rostos familiares em janeiro”; “Impõem-se determinadas regras, que se não forem cumpridas, haverá consequências”. Afirmações inconcebíveis da despótica Merkel, do seu ministro das finanças e dos seus acólitos Juncker e Durão Barroso. Pois é, lá estão estes gregos mandriões a querer, outra vez, marcar a história da humanidade. Este povo enfeitiçado pelos deuses, que na luta e na guerra são abençoados por Marte até à vitória personificada em Niké; que nos legaram tantas e tão boas memórias, tanto no pensamento filosófico como no património da Acrópole Ateniense; que fundaram a cultura helénica e construíram a Demos Kracia como governo do povo dizendo que “a verdadeira base da democracia é a liberdade” e que “a tolerância é a aceitação da pluralidade”, ousa agora apavorar a Europa. Em nome da democracia que instituíram, afrontam a arrogância dos intangíveis, mostram ser possível vencer o embuste da inevitabilidade, personificam o começo do fim do polvo financeiro e da desastrosa política do neoliberalismo. Com a força do Syriza que transforma a descrença na esperança de um povo e exige que as pessoas deixem de ser números e sejam tratadas pela dignidade das suas vidas, os afoitos gregos de hoje reivindicam, somente, o mesmo tratamento que a Alemanha teve em 1953 para o pagamento da sua dívida. Porque é que tal procedimento foi concedido à Alemanha e agora são os alemães (testa de ferro desta Europa) que o rejeitam? É que as taxas de rentabilidade e distribuição de milhões pelos seus acionistas valem mais que o infortúnio de um povo.
Acreditando que o povo grego não se amedronta perante a sórdida intromissão estrangeira e não cede às fantasiosas promessas eleitorais de quem os levou à miséria, confio no efeito polinizador da vitória do Syriza como exemplo para a saída da crise. Á política do negativismo e do medo responde-se com solidariedade e determinação. O sucesso da Grécia é a vitória da esquerda europeia contra a sinistra política da austeridade e criará jurisprudência para outros Estados-membro, abrindo as portas a outras reestruturações da dívida. A Espanha já tem o processo adiantado com o Podemos a liderar sondagens. Em Portugal temos por obrigação alastrar este movimento de confiança que junta forças, mobiliza partidos e cidadãos e constrói a pedagogia de uma verdadeira alternativa. O BE, que se tem empenhado em formar uma esquerda grande, plural e participada por todo(a)s, lança um repto aos cidadãos/ãs que entendem que Portugal tem direito à sua autodeterminação. Entre janeiro e março, o Bloco estará nas ruas com propostas concretas sobre a vida das pessoas e com a apresentação de uma petição a favor da desvinculação de Portugal do Tratado Orçamental, a subscrever por todo(a)s quanto(a)s assim entendam. Não se separa com a falácia de juntar como alguns/mas têm feito, mas antes junta-se para ampliar, para criar novas dinâmicas e fazer acreditar que um movimento de massas, popular, unificador de escolhas, mobilizador de direitos e intransigente defensor de valores, é capaz de capitalizar o descontentamento e vencer.
Como nota final e atendendo aos trágicos acontecimentos em França, digo que sou “Charlie” porque abomino o terrorismo e cultivo a paz. Porque odeio a intolerância e amo a liberdade. Porque apregoo a pluralidade religiosa e reprovo o fanatismo. Mas não confundamos o ato criminoso, porque é disso que se trata, com o Islão. O Alcorão não instiga à violência nem incita os muçulmanos à barbárie, da mesma forma que a Bíblia ao clamar pela paz recrimina todas as guerras protagonizadas pelos cristãos. Não se julgue a floresta pela árvore. Palavra de agnóstico.
Mas digo que também sou ”Palestiniano”, sou “Saharauí”, sou “Curdo”, sou “Tibetano”…, pela autodeterminação dos povos, das culturas e das pátrias e pela solidariedade dos direitos. E obviamente que sou “grego”, sou “Syriza”, pela convicção dos valores, pela determinação ideológica, pela transformação da sociedade, pela liberdade de ser, pela dignidade das nossas vidas.